Ao longo dos últimos meses a Unifesp vem recebendo uma série de eventos promovidos pelo Google Gemini, tecnologia de IA da Google. Em maio ocorreu no Campus Diadema, em agosto no Campus baixada santista e, em novembro, está previsto um evento no Campus Osasco.
No âmbito de tais eventos, a rigor denominados de “ativações”, ocorrem palestras com o objetivo de apresentar ferramentas e técnicas de uso dessa tecnologia, além de “experiências interativas” dos participantes com ela.
Contudo, preocupa-nos profundamente que isso venha ocorrendo no âmbito da nossa instituição, de forma cada vez mais normalizada, sem que venha sendo objeto de um debate crítico na comunidade acadêmica.
Primeiro de tudo em razão da constatação óbvia de que a Unifesp é pública, enquanto o Gemini é um produto e a Google é uma das maiores bigtechs do mundo, ou seja, uma instituição com fins privados muito evidentes. Ainda que argumente-se que durante essas “ativações” nenhuma venda esteja sendo realizada, não há dúvidas de que trata-se de uma divulgação comercial, afinal a plena utilização das ferramentas e potencialidades da IA em questão, de forma ilimitada, só pode ser acessada mediante planos de pagamento.
Na verdade, essa denominação (Brand Activation ou ativação de marca) é tão somente uma estratégia comercial e de marketing, cujo objetivo é fazer os potenciais clientes entrarem em contato com o produto, ou seja, senti-lo, tocá-lo, experimentá-lo e interagir com ele de forma “imersiva”, em vez de apenas observá-lo em um vitrine. Aliás, temos visto outras “ativações” realizadas por outras grandes empresas, de outros ramos econômicos (bebidas, esportivas, etc), em várias cidades do país, com o estrito objetivo de divulgar seus produtos.
Ou seja, ao fim e ao cabo, mesmo que os eventos que a Google vem promovendo na Unifesp sejam apresentados dessa forma, trata-se sim de uma ocupação do espaço público por uma bigtech privada que tem por objetivo tão somente vender seus produtos, o que deve colocar em atenção órgão públicos competentes, como o MP-SP.
Ainda pior. Nos eventos que o Google Gemini vem promovendo na Unifesp, com a chancela da Comissão de Extensão da Unifesp (Código SIEX: 28779), vem sendo sugerido aos estudantes que “subam” os conteúdos das aulas para o ambiente da IA, com o objetivo de obter resumos, mapas mentais, etc. Em uma postagem da Câmara De Extensão e Cultura de Diadema, afirma-se: “Bastava subir as anotações das aulas ou os slides do professor para o Gemini criar questionários personalizados, *flashcards* e resumos focados nas matérias das provas”.

Parece inofensivo e até útil, mas trata-se de um problema grave com vários desdobramentos. Primeiro porque compromete o direito de propriedade intelectual dos professores. Depois porque essa orientação induz os usuários da IA a alimentarem-na com dados, ou seja trabalhar de forma gratuita para ela.
Para além da observação crítica que as universidades devem fazer sobre o papel da IA quanto a possibilidades de uso como ferramenta de educação, cabe observarmos também os fortes impactos ambientais acarretados pelos Data Centers, máquinas super potentes onde os dados da IA são armazenados e processados. Em países como EUA, comunidades inteiras estão se levantando contra Data Centers instalados em suas imediações, em razão do alto consumo de água e energia elétrica, além do do forte ruído que elas geram.
Ao mesmo tempo, a universidade pública deve colocar-se como um bastião de defesa da chamada soberania digital, ou seja, a necessidade de controle público nacional, sobre ativos digitais, hoje completamente sob o controle privado das bigtechs.
