A recente decisão da reitoria da Unifesp sobre o HU-2 envolve inúmeros aspectos e traz várias consequências para a universidade e para a própria sociedade. Contudo, infelizmente o tema ainda não é de amplo conhecimento da comunidade universitária da Unifesp. Nesse sentido, preparamos esse texto para que você possa entender o que realmente está em jogo.
O Histórico e a estrutura do HU-2
O prédio do HU-2 começou a ser construído por entes privados para ser um hospital-dia de oftalmologia. Ao enfrentar graves questões financeiras, a obra foi interrompida, resultando na intervenção do Ministério da Educação, que decidiu pela aquisição do terreno/edifício e doação à Unifesp. A obra foi finalizada em 2018 com recursos 100% públicos (ou seja, nenhum centavo foi investido pela SPDM), totalizando um investimento corrigido de cerca de R$130 milhões.
Com 16 mil m² de área construída, o prédio possui 16 pavimentos, sendo quatro subsolos e 12 andares. Projetado com 40 leitos de internação, divididos entre dois andares (10° e 11° andar que hoje estão sendo subutilizados como consultórios), o HU-2 conta também com salas de medicamentos, salas para procedimentos cirúrgicos, espaços para apoio docente e discente, consultórios de atendimento ambulatorial, centro de diagnóstico e área de apoio a internações. Contudo, as seis salas cirúrgicas, sete leitos para recuperação pós-anestésica e os quartos de internação permanecem, desde sua inauguração em 2019, desativados e precisam de robustos investimentos para adequação estrutural que permita a sua utilização.
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Legalmente, o HU-2 também possuiu registro hospitalar no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) como hospital-dia, com inscrição Municipal. Este fato confirma o reconhecimento de uma estrutura hospitalar, e não somente ambulatorial.
Apesar dessa ampla estrutura, a SPDM (Sociedade Paulista para Desenvolvimento da Medicina, entidade privada) vem pressionando decisões da Unifesp com relação ao HU-2, afirmando continuamente que o HU-2 foi construído para ser apenas um “prédio de ambulatórios”. Ressalta-se aqui o fato de que o HU-2 nunca entrou em pleno funcionamento devido a um longo período conjuntural desfavorável, marcado por cortes orçamentários federais (Teto de Gastos/Governo Bolsonaro) e pressões políticas internas, criadas principalmente por servidores federais ligados à SPDM, que vêm resistindo a um hospital 100% próprio da Unifesp.
Qual a relação Unifesp, HSP e SPDM?
Desde a década de 1930, o HSP atua como o hospital-escola da Escola Paulista de Medicina (EPM). Apesar de a EPM ter sido federalizada nos anos 1950, o HSP permaneceu como uma propriedade privada da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM).
Embora seja uma entidade privada, a maior parte das receitas do HSP é proveniente do orçamento público da Unifesp. Em 2024/2025, cerca de 2 mil servidores Técnico-Administrativos em Educação (TAEs) da universidade estavam alocados no HSP, o que representa algo em torno de 34% a 40% de toda a folha salarial da Unifesp (um impacto superior a R$ 500 milhões anuais). Além disso, ali atuam por volta de 1.500 médicos residentes de diferentes especialidades, força de trabalho relevante para os atendimentos realizados no hospital. A Unifesp também tem custeado, por muitos anos, insumos, manutenção, além de contas de consumo (como R$5 milhões anuais de energia elétrica, retirados do orçamento do Campus SP).
Por tal intermédio, a SPDM construiu-se como uma enorme instituição, declarada filantrópica e sem fins lucrativos, mas que está dentre as dez maiores Organizações Sociais-OS do país, possuindo contratos com diversas prefeituras e estados país afora. Além disso, a SPDM insiste em fazer o HSP atender a rede privada, ao invés de ser 100% SUS. Importante ressaltar que não há transparência em relação ao uso do faturamento proveniente de atendimentos via SUS dentro do HSP. Os critérios e aplicação destas verbas não são conhecidos.
Neste contexto, a Unifesp é a única universidade pública do Brasil cujo hospital-escola, o HSP, não pertence à universidade, sendo de propriedade da entidade privada SPDM, que utiliza a estrutura pública em um mesmo edifício e compartilhando estruturas de origem pública para vender serviços à rede privada. Um absurdo completo!
Como são geridos os hospitais universitários nas universidades federais?
Atualmente, 45 HUs do Brasil são geridos pela HUBrasil (Ebserh) – empresa pública federal 100% estatal, dentre cerca de 50 instituições públicas brasileiras que contam com atendimento assistencial.
Vale lembrar que há 2 anos a então chamada Ebserh apresentou uma proposta de contrato de gestão com a Unifesp, o que incluiria investimentos da ordem R$120 milhões anuais, além de contratação de pessoal próprio. Tal investimento traria recursos anuais à Unifesp, diminuindo os custos e garantido as verbas para a sua utilização plena como hospital-escola e centro de pesquisa científico.
Contudo, a reitoria alegou que a proposta da Ebserh foi rejeitada por esta ser de alta complexidade (típica de um “hospital pleno”, pois continha leitos de UTI) e, portanto, inadequada ao caráter de “hospital-dia” projetado ao HU-2 pela Unifesp. Contudo, os documentos apresentados na proposta da Ebserh continham elementos que caracterizavam o HU-2 como um hospital-dia (mantendo ambulatórios), com atendimentos de média complexidade e UTI de retaguarda para tais atendimentos.
Em defesa do HU-2
Recentemente, em uma reunião com a reitoria, diretores acadêmicos e dirigentes da SPDM/HSP, a Adunifesp tomou conhecimento de que a gestão do HU-2 da Unifesp está sendo assumida pela mesma diretoria do HSP/SPDM – servidores federais conhecidamente alinhados à SPDM. No informe, a antiga direção do HU-2 (que era crítica à SPDM) foi destituída e a nomeação das diretorias clínica e de enfermagem, a mesma que gerencia o HSP, foi anunciada.
Neste mesmo informe também foi anunciado, como “solução” para a ativação pela do HU-2, que ele passará a utilizar o mesmo registro do HSP (um CNES privado), para suas contratualizações – tal decisão, na prática, rasga o CNES público do HU-2. Uma evidente ofensiva privatista à universidade pública, à saúde pública e ao patrimônio da nossa universidade.
Diante de tais informes trazidos na reunião, alguns questionamentos foram feitos pelos representantes da diretoria da Adunifesp ali presentes – os companheiros Alberto Handfas, Jane Zveiter e Vanessa Vendramini:
- “O HU-2 é 100% público, de propriedade da Unifesp. Por que ele vai agora ser gerido pela SPDM (entidade privada, proprietária do HSP)?
- De onde o HSP — que é gerido pela SPDM — garantirá recursos para sustentar financeiramente e colocar em pleno funcionamento o HU-2?
- A Unifesp receberá verbas públicas e financiará seu funcionamento?
- Por que a Unifesp rejeitou uma proposta de R$130 milhões (em valores de 2026) da empresa estatal federal HU-Brasil?
- Como dizer que a gestão do HU-2 será pública e direta pela Unifesp se é evidente que ela será feita diretamente, de fato, pela privada SPDM, por meio da diretoria de seu HSP e utilizando um CNES privado?”
A Adunifesp também reivindica uma ampla discussão sobre qual seria a melhor opção para a nossa Unifesp dentro deste cenário – o que a Reitoria considera que já foi amplamente realizado. Porém, segundo atesta uma enquete de iniciativa do “Fórum UNIFESP Que Queremos” e do “Comitê em Defesa do HU-2” que conversou com mais de 500 pessoas, 62% da comunidade universitária desconhece ou conhece apenas superficialmente o problema.
Portanto, exigimos que uma decisão dessa magnitude seja devidamente debatida, de forma pública e participativa, envolvendo o conjunto da comunidade universitária, e que o tema também seja submetido democraticamente ao Consu antes de ser plenamente encaminhado.
