Uma proposta de moção pelo fim do genocídio em Gaza e pela ruptura de relações do Brasil com Israel foi submetida ao Consu da Unifesp. A iniciativa partiu de docentes, TAEs e estudantes que participam da Rede Unifesp de Solidariedade ao Povo Palestino. A diretoria da Adunifesp, seus diretores e inúmeros apoiadores subscrevem a proposta submetida (vejam abaixo). Ela deve ir a voto na reunião do Consu do dia 10/09/2025.
Fim do genocídio em Gaza! Suspensão de relações comerciais e militares do Brasil com Israel
O Conselho Universitário (Consu) da Unifesp manifesta seu veemente repúdio às sistemáticas práticas genocidas e de limpeza étnica perpetradas pelo Estado de Israel contra populações civis na Palestina, em particular, na Faixa de Gaza.
- Ao barrar por anos a entrada de alimentos, combustíveis, água potável e medicamentos em Gaza, Israel vem fabricando intencionalmente a fome, o desespero e a disseminação de epidemias a mais de 2 milhões de palestinos. Desses, metade são crianças e adolescentes e 80% são refugiados (e/ou seus descendentes) expulsos de suas terras, vilarejos, cidades e bairros em 1948 pelas forças israelenses.
- Ao bombardear ininterruptamente, por dois anos, milhares de edifícios residenciais, todas as universidades, centenas de escolas, mesquitas/igrejas e praticamente todas as dezenas de hospitais; ao destruir assim quase toda a infraestrutura urbana de Gaza, Israel tem – premeditada e propositalmente – produzido um desastre humanitário de enormes proporções.
- Ao expulsar a agência humanitária da ONU (UNRWA) que realizava a distribuição de mantimentos e, no seu lugar, impor o GHF (“Gaza Humanitarian Foundation”), uma milícia privada de mercenários dos EUA que tem sistematicamente montado armadilhas à população faminta, forçando-a a esperar por alguma comida em verdadeiras jaulas e cercados abarrotados enquanto lhe dispara tiros intermitentemente, Israel procura desmoralizar e desesperar uma população inteira com vilania poucas vezes vistas desde a 2ª Guerra Mundial.
- Ao forçar o deslocamento de milhões – ameaçando-os com bombardeios – de cidades ao norte de Gaza para outras ao sul; apenas para força-los a deslocarem-se novamente, sucessivas vezes e em sentidos opostos, Israel parece preparar as condições para tentar colocar em prática o projeto de expulsão em massa de toda uma população de suas terras. Expulsão iniciada em 1948 com a Nakba (“catástrofe” palestina) e cuja continuidade tem sido declaradamente promovida por representantes oficiais – não apenas do atual governo, mas também de várias instituições do Estado de Israel como tal. Expulsão, aliás, grotescamente sugerida pelo presidente dos EUA – e apoiada por outras potências – na forma da “retirada de sua população” e sua milenar herança cultural, da “limpeza dos escombros” e da construção de uma “Riviera”, um “resort luxuoso” e lucrativo (a ricos estrangeiros).
- Ao usar e abusar da punição coletiva, prática e argumentativamente, Israel vem cometendo deliberados, repetidos e gravíssimos crimes contra a humanidade. Assim, bombardear hospitais, escolas ou edifícios residenciais a pretexto de atingir um inimigo (supostamente) lá abrigado consiste em gravíssimo crime de guerra e pesada infração da 4ª Convenção de Genebra (1949) e do Direito Internacional Humanitário.
- Nos últimos 22 meses, o número de habitantes de Gaza assassinados por tais ataques israelenses já se aproxima de 10% da população. Apenas registrados oficialmente, já são 64 mil vítimas fatais de ferimentos traumáticos decorrentes de bombardeios e tiroteios. Além deles, estimativas mais ou menos conservadoras – tanto de organismos internacionais, como de artigos recentes publicadas em revistas científicas (Lancet, Nature etc) – apontam que outras dezenas de milhares de pessoas tidas como desaparecidas, estejam de fato mortas sob os escombros de edifícios bombardeados.
- Com tudo isso, abundam evidências de genocídio. E cresce ininterruptamente o número de instituições e organismos internacionais que apontam ação genocida de Israel contra a população de Gaza. Além das Cortes Internacional de Justiça (CIJ, que definiu a plausibilidade) e Criminal (CIC, que determinou a prisão de Netanyahu dada tal plausibilidade), inúmeras organizações de direitos humanos já declararam a inquestionável prática genocida de Israel: da Anistia Internacional, ao Human Rights Watch e aos Médicos Sem Fronteiras, passando inclusive pelas duas principais instituições israelenses de direitos humanos, B’Tselem e Médicos Israelenses por Direitos Humanos. A mais renomada instituição acadêmica no estudo de genocídios, a “International Association of Genocide Scholars’s” (IAGS), aprovou (01/09/2025) resolução que afirma que “as ações de Israel em Gaza atendem à definição legal de genocídio”.
- Concomitantemente, a população palestina na Cisjordânia – território que, como Gaza, é ocupado militarmente por Israel já há quase 60 anos em completo desrespeito à lei internacional – segue sendo vítima de crescentes expulsões e desapropriações ilegais e arbitrárias. Tudo para acelerar a (também absolutamente ilegal) transferência de colonos israelenses. Assassinatos, espancamentos e prisões arbitrárias de aldeões palestinos por parte das forças armadas e policiais israelenses têm aumentado vertiginosamente nos últimos anos e meses.
Fazemos um chamado à comunidade universitária e científica de todo o país.
Não é possível tolerar por mais um dia tamanha brutalidade! Injustiça a um é injustiça a todos; “injustiça em qualquer lugar é uma injustiça em todos os lugares”, já dizia o reverendo Martin Luther King Jr. (1963). É urgente agirmos aqui e já! É chegado o momento de o Brasil suspender suas relações comerciais – de bens e serviços (incluindo técnicos-acadêmico-institucionais) – e militares com o Estado de Israel.
O Conselho Universitário da Unifesp, junta-se assim a outros de várias universidades brasileiras – como os da Unicamp e Unesp -, bem como a movimentos sociais, a defensores da democracia e da justiça social. Juntos, solicitamos ao Estado brasileiro que se alinhe às decisões de organismos internacionais e de muitos outros Estados nacionais para, assim, ajudar na prática a pôr fim ao genocídio em Gaza, abrindo caminho à garantia da democracia, justiça e de autodeterminação ao povo palestino.
Membros do Consu (proponentes iniciais):
Alberto Handfas
Bel Moretti Aly
Celso Yokomiso
Cláudia Alessandra Tessari
Julio Cesar Zorzenon Costa
Luciana Massaro Onusic
Luciana Rosa de Souza
Luciene Covolan
Matheus de Almeida F. C. Aranha
Rafael Beserra
