Arquivo diários:23 de julho de 2012

Reunião entre docentes e governo termina em impasse e continua nesta terça (24)

Na tarde desta segunda-feira (23), o Comando Nacional de Greve e o ANDES-SN se reuniram com representantes dos Ministérios do Planejamento e da Educação para retomar as negociações sobre a carreira docente. Seguindo a decisão das assembleias realizadas por todo o país, os representantes dos docentes rejeitaram a proposta do governo e apresentaram um documento que tenta nortear uma possível nova proposta do planalto. A reunião terminou em impasse e um novo encontro deve ocorrer amanhã (24).

A última sexta-feira (20) foi marcada por importantes atividades da greve dos docentes da Unifesp. Além de uma assembleia geral, docentes realizaram reuniões com parlamentares do Estado de São Paulo e uma coletiva de imprensa conjunta com professores da UFABC. Os docentes de ambas as universidades rejeitaram a proposta apresentada pelo governo e reivindicam a continuidade das negociações.

No mesmo dia, docentes das federais de São Paulo e do ABC se encontraram com o senador Eduardo Suplicy, com os deputadores federais Ivan Valente e Paulo Teixeira e com um assessor da senadora Marta Suplicy. O senador Suplicy participou do final da assembleia dos docentes da Unifesp, ouviu os diversos motivos de rejeição da proposta e se colocou à disposição para ajudar na retomada das negociações entre docentes e governo federal. Durante a assembleia, os professores da Unifesp discutiram propostas ao Comando Nacional de Greve, a serem apresentadas na reunião ocorrida hoje (23).

Representantes dos comandos locais de greve da Unifesp e da UFABC ainda concederam uma entrevista coletiva para alguns meios de comunicação com o intuito de explicar os motivos da rejeição da proposta do governo e a continuidade das negociações. Estiveram presentes os portais da internet G1, R7 e IG, o jornal O Estado de São Paulo e o blog Escrevinhador, do jornalista Rodrigo Vianna. Além disso, equipes dos canais de televisão Globo e Record captaram imagens da entrevista. Os docentes ainda conversaram por telefone com a Rádio Brasil Atual e a TV Cultura.

Confira as fotos das atividades de sexta-feira (20) clicando aqui.

Balanço das assembleias indica rejeição unânime à proposta do governo

CNG-ANDES-SN convoca tuitaço e vigília para esta segunda (23) – Neste momento histórico das lutas do ANDES-SN, as Assembleias Gerais das seções sindicais, realizadas no período de 16 a 20 de julho, rejeitaram massivamente a proposta apresentada pelo governo no último dia 13. “As deliberações reafirmam princípios e fundamentos da carreira do ANDES-SN, bem como a necessidade de melhoria das condições de trabalho e valorização salarial”, avalia o Comando Nacional de Greve do ANDES-SN (CNG).

No domingo (22), os docentes que compõem o CNG do ANDES-SN estiveram concentrados na sede do Sindicato Nacional, em Brasília, em preparação para a reunião com o governo, que será realizada nesta segunda (23), a partir das 14h.

Em comunicado, Comando Nacional de Greve do ANDES-SN reiterou “a necessidade de que seja intensificada a greve visando a fortalecer o CNG no processo de negociação”.

Para isso, convocou todos os professores e internautas, que apóiam a luta dos docentes em defesa da Educação Pública e de Qualidade e pela melhoria das condições de trabalho nas Instituições Federais de Ensino, a participarem de tuitaço nesta segunda-feira (23), preferencialmente das 12 às 14 horas, utilizando a hashtag #falaSerioMercadante.

Segundo o comunicado do CNG, as bases docentes do ANDES-SN permanecerão na luta, durante a semana, com nova rodada de assembleias locais para discutir e avaliar os resultados dessa nova reunião com o governo.

“Convocamos todos para participar de uma vigília nos estados durante todo o dia 23”, conclamam os docentes.

Fonte: ANDES-SN

Uma tremenda e inadmissível falta de Educação

“Nenhum teste de sociedade justa é tão claro e decisivo como a sua
propensão em tributar para desenvolver e sustentar
um forte sistema educacional para todos os seus cidadãos.”

[John K. Galbraith, A sociedade justa: uma perspectiva humana, p.83]

Todos os que trabalham e se interessam pela construção da universidade pública universal, gratuita e de qualidade sabem que vivemos hoje sob uma política de desqualificação sistemática da atividade docente proveniente, por um lado, da opção política de manter um superávit primário com vistas ao pagamento dos juros da dívida pública e, por outro, da incompetência administrativa do governo para com os assuntos da educação.

Desde 2011, foram feitas insistentes propostas ao Ministério da Educação de revisão do plano de carreira dos docentes das Universidades Públicas Federais, de exigências de cumprimentos dos acordos e prazos para realização de obras de infraestrutura e de constituição de equipes de estudos e discussão para consolidar com qualidade  a expansão do ensino superior federal. Todas as propostas foram invariavelmente desprezadas pelo governo, o que nos levou a instaurar, democraticamente, o processo de deflagração da greve nacional como meio de sensibilização e envolvimento de todos diante de tão emergencial situação. E, como vemos, a adesão é quase total: 56 das 59 universidades federais estão em greve. Docentes, estudantes e técnico administrativos já formam comitês unificados de reivindicação em quase todos os estados do Brasil. Para nós, a greve além de legítimo instrumento de mobilização e reivindicação, é importante ocasião de educação política, de organização das categorias envolvidas no trabalho universitário e de constituição de reflexão crítica coletiva sobre as relações entre educação, sociedade e políticas de Estado.

A greve representa hoje um regime de exceção dentro de outro. É, por isso, uma oportunidade para compreender a conformação que resulta na atual política educacional. A excepcionalidade que a greve instaura permite modificar o ponto de vista a partir do qual nos vemos em permanente atrelamento durante a vigência da chamada “normalidade”. Essa espécie de abalo permite que se ofereçam as condições para pensar de outro modo o curso dos acontecimentos, inclusive as forças que os determinam e as que resultam em consequências. E disso sobressai, inclusive, os sentidos políticos que erigem como “natural” o que na verdade é “escolha”, portanto, construção interessada e orientada por preferências e decisões, dentre outras, de natureza política.

Nosso problema (de todos) tem sido que essa construção do real se pauta por e se caracteriza como um estado de exceção permanente, e se constitui como o paradigma dominante para os governos na política contemporânea. Que outro motivo seria tão determinante do desrespeito sistemático dos direitos humanos em tão variadas e amplas esferas? Que outra razão explicaria que os seres humanos (quando não considerados como meros consumidores) têm se tornado um estorvo em muitos projetos, sejam mercantis, científicos ou políticos?

É disso que se está falando quando se torna “natural” passar a responsabilidade total pela carreira dos docentes, por exemplo, ao departamento financeiro da União. É disso que se trata quando vamos nos acostumando com a precariedade como dado “normal”
na Educação brasileira. É contra isso que nos manifestamos quando mudamos o rumo dos acontecimentos instaurando um processo democrático, social e político de reflexão sobre uma ordem que gera incessantemente descalabros e aprofunda cada vez mais o que de pior se produziu em matéria de política e de educação na história.

A circunstância que deixa pessoalmente muitos docentes indignados, seja pela carência ou inexistência de suas bibliotecas, de seus laboratórios, de suas salas de aula, das instalações, enfim, de seus campi constitui-se como um momento no sistema conjunto de uma cultura que desqualifica toda a Educação e, em particular, todo o trabalho docente, cultura na qual, segundo Adorno, “o professor se converte lenta, mas inexoravelmente, em vendedor de conhecimentos, despertando até compaixão por não conseguir aproveitar melhor seus conhecimentos em benefício de sua situação material.”

No entanto, isso deve servir para que cada um, individualmente, compreenda que para além das mazelas imediatas que nos cercam há questões de fundo a determinarem todas essas precariedades, e a ocasião da greve representa o momento oportuno de enxergamos um pouco mais adiante no sentido dessa radicalidade que poderá, se nos mantivermos unidos, constituir uma experiência engrandecedora de luta coletiva e um verdadeiro e inédito avanço das forças educacionais na ainda triste história deste país.

Nosso apelo, por isso, é no sentido de união, tanto dos docentes quanto de estudantes e técnicos administrativos, de ampliação e aprofundamento do debate, de estudo das propostas e das alternativas, de esclarecimento dos eixos de reivindicação e da consolidação dos canais que têm permitido a formação de uma atmosfera intelectual crítica de atenção para com os meandros decisórios que resultam nas políticas de Estado para a educação e para a universidade no Brasil.

Docentes da Unifesp: Décio Luís Semensatto Jr. (campus Diadema), Denilson Soares Cordeiro (campus Diadema), Márcia Aparecida Jacomini (campus Guarulhos), Marian Ávila de Lima e Dias (campus Guarulhos) e Virgínia Junqueira (campus Baixada Santista e presidente da Adunifesp-SSind.)